O corredor da prisão militar cheirava a concreto úmido e desinfetante barato. O sargento Almeida arrastou os coturnos pelo piso encerado, cada passo ecoando entre as paredes de blocos cinzentos até a cela do fundo. A lâmpada pendurada no teto oscilava, projetando sombras que dançavam sobre os corpos amontoados no espaço exíguo. Três prisioneiros. Uniformes rasgados, barbas por fazer, olhos que acompanhavam cada movimento do militar com a cautela de quem aprendeu a medir o perigo pela distância dos coturnos. O mais jovem não devia ter mais de vinte e dois anos. Cabelo castanho cortado quase à raspado, um corte que em tempos teria sido militar, agora desigual, com tufos mais longos onde ninguém se dera ao trabalho de o aparar. Tinha o lábio inferior rachado, uma crosta escura que se abria quando ele engolia em seco. Os olhos eram de um castanho claro, quase âmbar, e não desviavam do sargento. Fixavam-no com a atenção de quem conta os botões da farda, as manchas de suor sob as axilas, o desgaste na correia da pistola. Almeida encostou-se à grade, os dedos curvados no metal frio. A farda verde-azeitona marcava-lhe os ombros largos, o peito largo de quem passava horas no campo de treino. O suor colava-lhe o tecido às costas. O calor de fevereiro em Luanda era uma coisa espessa, quase sólida, que se agarrava à pele e não largava. — Tu. — Apontou para o jovem. — Levanta. O prisioneiro não se mexeu de imediato. Os outros dois trocaram um olhar rápido, um movimento quase imperceptível de sobrancelhas. Depois o jovem ergueu-se, devagar, as mãos abertas à frente do corpo numa rendição automática. Era mais baixo que Almeida por quase uma cabeça. O uniforme prisional — um conjunto de calça e camisa de algodão grosseiro, cor de cáqui desbotado — pendia-lhe dos ombros. Tinha emagrecido. O osso da clavícula desenhava-se por baixo do tecido. — Nome. — Daniel. — A voz era rouca, como quem não falava em voz alta há dias. — Daniel Ferreira. — Pois, Daniel Ferreira. — Almeida desceu os olhos do rosto ao peito, ao cinto da calça que apertava com um nó improvisado, aos pés descalços no cimento. — Sabes por que estás aqui. Não era uma pergunta. Daniel engoliu. A crosta no lábio abriu-se e uma gota de sangue escorreu até ao queixo. Ele não a limpou. — Vais acompanhar-me. — Almeida destrancou a cela com a chave que pendia do cinto. O metal rangeu. — Os teus colegas ficam. O corredor até à sala de interrogatório era mais longo do que Daniel recordava da entrada, dois dias antes. Ou três. Perdera a noção das horas naquela cela sem janelas, com apenas a lâmpada a marcar o ritmo. Almeida caminhava à frente, os ombros quadrados bloqueando a vista do que vinha a seguir. Daniel seguia-o, descalço, sentindo cada irregularidade do cimento sob as plantas dos pés. Uma pedra miúda cravou-se-lhe no calcanhar. Ele não abrandou. A sala de interrogatório era pequena. Uma mesa de metal, duas cadeiras, um candeeiro de mesa que projetava um círculo de luz amarela sobre a superfície arranhada. O ar tinha um cheiro diferente do corredor — tabaco frio, papel velho, e por baixo de tudo, qualquer coisa metálica, ferrugem. Almeida fechou a porta. O fecho estalou com um som seco que Daniel sentiu nos dentes. — Senta-te. Daniel obedeceu. A cadeira estava fria contra as suas coxas através do tecido fino da calça. As mãos de Almeida pousaram na mesa, os dedos abertos. Unhas curtas, limpas, uma aliança de prata no dedo anular esquerdo. Daniel reparou na aliança. Depois reparou que Almeida reparara nele a reparar. — Estás-me a olhar para as mãos, Ferreira. — Estou a olhar para a aliança. Almeida não respondeu de imediato. Girou a aliança no dedo, um gesto mecânico, como quem pensa noutra coisa. Depois contornou a mesa e ficou ao lado de Daniel, demasiado perto. O cheiro dele era nítido agora — suor, couro da correia, o sabão militar que usava na barba. Daniel não virou a cabeça, mas os olhos acompanharam o movimento, o quadril de Almeida a poucos centímetros do seu ombro. — A aliança não te interessa. — A voz de Almeida baixou. Não era ameaçadora — era outra coisa. Mais grave, mais lenta, como se cada palavra fosse medida antes de sair. — O que te interessa é sair daqui com vida. A mão de Almeida pousou no encosto da cadeira de Daniel, por trás da cabeça. Os dedos roçaram a nuca do prisioneiro — um toque que não pertencia àquele gesto, que não tinha justificação funcional. Daniel não se mexeu. O músculo da mandíbula contraiu-se, um movimento visível sob a pele. — Diz-me o que sabes das movimentações no norte. — Não sei nada. — Não sabes nada. — Almeida repetiu as palavras sem inflexão, como quem lê um relatório. A mão desceu do encosto da cadeira para o ombro de Daniel. O polegar pressionou a clavícula saliente, o tecido da camisa amassando sob o contacto. — Estiveste destacado em Carmona. Não me venhas com nada. Daniel virou finalmente a cabeça. Os rostos ficaram próximos — vinte centímetros, talvez menos. O hálito de Almeida cheirava a café forte. Os olhos dele eram escuros, quase pretos, sem a cor a separar a íris da pupila naquela luz fraca. Daniel procurou qualquer coisa naqueles olhos — raiva, interrogação, ordem — e encontrou algo que não conseguia nomear. Uma atenção demasiado específica. Uma fixação que não era profissional. — Estive em Carmona — disse Daniel, a voz mais baixa do que pretendia. — Destacado nas comunicações. Não tinha acesso a movimentações de tropa. A mão de Almeida apertou o ombro. O polegar encontrou o ponto onde o trapézio se inseria no pescoço e pressionou, não com força suficiente para magoar, mas com força suficiente para ser inequívoco. Daniel fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, Almeida continuava ali, imóvel, a observá-lo com aquela atenção que não pertencia a um interrogatório. — Comunicações. — Almeida soltou a palavra como quem a testa na boca. A outra mão pousou na mesa, ao lado da coxa de Daniel. O braço enquadrou o prisioneiro sem o tocar — uma gaiola de osso e músculo. — Então sabes os códigos de rádio. — Os códigos foram mudados depois da minha captura. — Mudados. — O polegar no pescoço de Daniel desceu dois centímetros, para a base da garganta, onde o pulso batia visível sob a pele fina. Almeida contou as batidas. Daniel sabia que ele estava a contá-las. — Quem os mudou? — Não sei. — Não sabes. O tédio na voz de Almeida era performado. Daniel reconheceu a performance porque já a vira antes — nos sargentos que o tinham interrogado nos primeiros dias, antes de o mandarem para aquela cela. Mas o toque não era performado. O toque era real. O polegar na sua garganta, os dedos no ombro, o corpo de Almeida inclinado sobre o seu, o calor que irradiava da farda. Almeida baixou-se. O rosto ficou ao nível do de Daniel. A boca a centímetros da orelha do prisioneiro. Daniel sentiu a respiração quente no pavilhão, o cabelo raspado de Almeida roçar-lhe a têmpora. — A próxima pergunta é a última, Ferreira. — A voz era um sussurro que vibrava contra a pele de Daniel. — Se me disseres a verdade, esqueço o resto. Se me disseres outra mentira… — A mão no ombro desceu pelo braço de Daniel até ao pulso. Os dedos de Almeida fecharam-se em volta do osso, quentes, secos, calosos nos pontos onde empunhava a arma. — …não te vou mandar de volta para a cela. Daniel olhou para a mão que lhe agarrava o pulso. Depois para o rosto de Almeida. A distância entre as duas bocas era a distância de um pensamento. O lábio rachado de Daniel abriu-se mais, o sangue a escorrer agora pelo queixo, gotejando na gola da camisa. — Pergunta. Almeida não perguntou. Mantiveram-se assim, imóveis, o pulso de Daniel agarrado, as bocas quase coladas, a lâmpada do teto a oscilar e a redesenhar as sombras nos dois corpos curvados sobre a cadeira.
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