O cheiro de éter e desinfetante impregnava o corredor da ala masculina do Hospital São Lucas. Ricardo caminhava pelo piso brilhante com um saco de plástico na mão — dentro, uma garrafa de sumo de laranja natural e um pacote de bolachas de manteiga, as preferidas de André. As fluorescentes do teto piscavam num zumbido constante, e o ar condicionado fazia o ambiente parecer dez graus mais frio do que o calor de agosto lá fora justificava.
André estava internado há seis dias. Uma fractura no fémur direito, resultado de uma queda estúpida num campo de futebol informal com os colegas do escritório. A cirurgia tinha corrido bem, mas a recuperação ia ser lenta — pelo menos três semanas com a perna imobilizada e presa àquela estrutura metálica de tracção que parecia um instrumento de tortura medieval. Quando Ricardo chegou à porta do quarto 214, bateu duas vezes com os nós dos dedos na madeira e empurrou a porta sem esperar resposta.
André estava encostado a três almofadas, com o controlo remoto da televisão na mão e os olhos cravados num qualquer programa de tarde sobre culinária. A perna direita estava suspensa, envolta em gesso da coxa ao tornozelo, presa por cabos de aço a um suporte por cima da cama. A esquerda estava livre, dobrada ligeiramente sobre o colchão. Tinha a barba por fazer de três dias e olheiras profundas debaixo dos olhos castanhos.
— Oh, finalmente uma cara conhecida — disse André, largando o controlo remoto sobre o peito. A voz saiu-lhe mais rouca do que o normal. — Estou aqui a apodrecer, Ricardo. A enfermeira da manhã nem me deixou ir à casa de banho sozinho. Ficou ali a olhar para o meu pau como se eu fosse um bebé.
Ricardo puxou a cadeira de plástico azul para junto da cama e sentou-se. Colocou o saco em cima da mesa de cabeceira, ao lado de um copo de água com canudo e um frasco de comprimidos.
— Trouxe-te sumo e bolachas. E tristezas, pelo visto.
— Não é tristezas. É frustração. — André passou a mão pelo rosto, arrastando os dedos pela pele oleosa. — Seis dias, Ricardo. Seis dias deitado nesta cama sem conseguir fazer absolutamente nada. Nem sequer consigo…
Parou. A mandíbula contraiu-se. Desviou o olhar para a janela, onde a luz da tarde entrava oblíqua e fazia brilhar o linóleo do chão.
Ricardo franziu o sobrolho.
— Não consegues o quê?
André engoliu em seco. O pomo de Adão subiu e desceu no pescoço magro. Os dedos agarraram o lençol branco com tanta força que os nós ficaram brancos.
— Não consigo bater uma. Está-me a dar a volta ao miolo. Tento, mas com a mão direita imobilizada por causa do soro e a esquerda… não consigo encontrar um ângulo que não me faça doer a perna. E a enfermeira entra a cada duas horas. Já tentei de madrugada, mas entre a dor e a posição…
Ricardo ficou em silêncio. Olhou para a mão direita de André, que estava de facto presa a uma linha de soro fixada num suporte ao lado da cama. Depois olhou para a perna em tracção, suspensa e imóvel. Depois para o volume sob o lençol, que agora que reparava — e não conseguia deixar de reparar — era inequívoco. O tecido branco do lençol hospitalar fazia uma tenda pequena sobre a zona pélvica de André.
André seguiu o olhar de Ricardo. O rosto dele ficou vermelho desde o pescoço até às orelhas.
— Foda-se, desculpa. Não consigo controlar. Acordo assim todas as manhãs e não há maneira de…
— Quanto tempo faz? — perguntou Ricardo, a voz baixa e controlada, como se estivesse a perguntar sobre a dosagem de um analgésico.
— Oito dias. Desde antes da cirurgia. No hospital nem consigo ir à casa de banho com privacidade. — André soltou um riso seco e forçado. — Estou a ficar maluco. A tensão é tanta que me dói os colhões, Ricardo. Literalmente me dói.
Ricardo não disse nada durante alguns segundos. O som do monitor cardíaco ao lado preenchia o silêncio com bipes regulares. Lá fora, um carro passou na rua e o som da buzina chegou abafado através do vidro duplo da janela.
Depois Ricardo levantou-se da cadeira. Olhou para a porta do quarto — estava fechada. Olhou para o relógio de parede acima da porta: 15h42. A visita da tarde da enfermeira tinha sido há vinte minutos, o que significava que a próxima ronda seria por volta das 17h.
— Então deixa-me ajudar-te — disse Ricardo, com a mesma naturalidade com que teria oferecido para ir buscar um copo de água.
André ficou a olhar para ele. A boca abriu-se, mas não saiu nenhum som. Os olhos castanhos piscaram duas vezes, rápido.
— Queres…?
— Quero. Se tu quiseres. — Ricardo puxou a cadeia do cortinado que separava a cama de André da outra cama vazia do quarto. O tecido azul-escuro deslizou pelo varão metálico com um som oco e formou uma parede de privacidade. — Não há mais ninguém no quarto. A porta está fechada. Tens quase duas horas.
André não respondeu imediatamente. Os dedos continuavam agarrados ao lençol. O peito subia e descia num ritmo mais rápido do que o do monitor cardíaco indicava. Depois, lentamente, soltou o lençol e inclinou a cabeça para trás contra as almofadas. Fechou os olhos.
— Sim — disse, numa voz que mal se ouvia acima do zumbido do ar condicionado. — Por favor.
Ricardo sentou-se na beira da cama, com cuidado para não a deslocar. O colchão cedeu sob o seu peso. O calor do corpo de André chegou-lhe através do lençol fino — era um calor febril, denso, carregado de dias de tensão acumulada. Ricardo agarrou na borda do lençol e puxou-o para baixo, devagar, até à altura das coxas.
André usava uma camisola do hospital, aberta nas costas e com laços na frente. Por baixo, uns boxers cinzentos de algodão que já tinham visto dias melhores. O volume dentro deles era inconfundível — o contorno de um pau duro que se esticava contra o tecido, criando uma mancha escura de humidade na zona da glande. O cheiro chegou de imediato: musgo, suor, e aquele cheiro ácido e salgado de excitação masculina que não saía por mais duches que se tentassem dar.
Ricardo passou os dedos pela coxa esquerda de André, por cima da pele quente e com uma camada fina de pêlos escuros. A perna contraiu-se num espasmo involuntário. Os músculos da coxa tremeram.
— Relaxa — disse Ricardo. Baixou a cabeça e colocou os lábios sobre o tecido do boxer, mesmo por cima do contorno da glande. Soprou devagar, enviando uma onda de calor húmido através do algodão.
André soltou um som gutural — não era um gemido, era mais um estalo de ar entre os dentes cerrados. As ancas dele subiram da cama numa contracção involuntária.
Ricardo puxou o boxer para baixo com ambas as mãos, deslizando o elástico sobre as ancas de André e pela coxa esquerda. O pau saltou para fora, livre da restrição do tecido. Era grosso, curvado ligeiramente para a esquerda, com a pele do prepúcio já recolhida e a glande exposta, vermelha e brilhante de líquido pré-seminal. Media cerca de dezassete centímetros, circuncidado parcialmente, com uma veia grossa que percorria a parte inferior do eixo como um rio sinuoso. Os colhões estavam retraídos contra o corpo, duros e redondos dentro do saco de pele enrugada.
Ricardo não perdeu tempo. Envolveu a base do pau com os dedos da mão direita, sentindo o calor pulsar contra a palma. O membro tremia na sua mão como uma coisa viva e independente. Baixou a cabeça e passou a língua pela glande, num movimento lento e circular que começou na frenda e terminou na parte inferior da coroa.
O gosto salgado e levemente metálico do líquido pré-seminal espalhou-se pela língua de Ricardo. André agarrou o colchão com a mão esquerda — a única livre — e cravou os dedos na espuma. A mandíbula cerrou-se com tanta força que se ouviram os dentes rangerem.
— Caralho — sussurrou André, a voz partida e rouca. — Caralho, caralho.
Ricardo abriu a boca e tomou a glande inteira dentro. O calor era intenso — a boca de André não era diferente do resto do corpo, febril e em tensão. Fechou os lábios em volta do eixo, logo abaixo da coroa, e chupou com um movimento constante e ritmado, criando um vácuo que fez as bochechas dele afundarem. A língua trabalhava a parte inferior da glande, onde a pele era mais sensível, com movimentos pequenos e firmes.
André começou a gemer. Não eram gemidos altos — eram sons contidos, quase sufocados, que lhe escapavam pela garganta como vapor de uma panela fechada. As ancas dele tentaram mover-se, tentaram empurrar o pau mais fundo na boca de Ricardo, mas a tracção na perna direita limitava qualquer movimento a centímetros.
Ricardo baixou mais a cabeça. Tomou mais do eixo dentro da boca, sentindo a glande bater contra o fundo da garganta. O reflexo de gag veio, mas controlou-o — respirou pelo nariz e relaxou a garganta como quem engole um grande gole de água. O pau deslizou mais fundo, até os lábios de Ricardo tocarem a base, onde os pêlos púbicos eram curtos e ásperos contra o queixo.
— Foda-se, foda-se, foda-se — André repetia a palavra como um mantra, a mão esquerda soltou o colchão e foi para a cabeça de Ricardo. Não empurrou — apenas pousou os dedos no cabelo curto, agarrando as madeixas como quem se agarra a uma corda no escuro.
Ricardo começou a mover a cabeça para cima e para baixo num ritmo constante. A saliva acumulava-se na base do pau e escorria pelos dedos que ainda seguravam o eixo. O som era obsceno — um som húmido e ritmado de sucção que enchia o quarto hospitalar e se misturava com o bipe regular do monitor cardíaco. Cada vez que Ricardo subia, a língua percorria a veia inferior do eixo como se estivesse a traçar uma linha de prazer. Cada vez que descia, a garganta envolvia a glande numa pressão quente e apertada.
André estava a perder a compostura. A cabeça dele oscilava sobre as almofadas, de um lado para o outro. O suor escorria pelas têmporas e molhava o algodão da camisola hospitalar. Os músculos do abdómen contraíam-se em espasmos involuntários, criando uma dança de sombras sobre a pele. A respiração dele era irregular, entrecortada, com inspirações curtas e expirações longas e trémulas.
— Estou… estou quase — disse André, e a voz dele subiu meio tom. A mão na cabeça de Ricardo apertou-se. Os dedos agarraram o cabelo com força. — Não pares, não pares, por favor, não pares.
Ricardo não parou. Acelerou o ritmo. A cabeça movia-se agora com uma urgência que fazia o pescoço doer, mas não abrandou. A mão direita largou a base do pau e foi para os colhões de André, agarrando o saco com firmeza e puxando-o para baixo com movimentos curtos e ritmados que acompanhavam a sucção da boca.
O corpo de André arqueou — não muito, porque a tracção não deixava, mas o suficiente para que as costas saíssem do colchão. A mão esquerda agarrou o lençol outra vez e puxou com tanta força que o tecido rasgou perto do colchão. O pau inchou dentro da boca de Ricardo — sentiu a glande crescer contra a língua, sentiu as veias dilatarem-se sob os lábios.
— Vou… vou…
O primeiro jacto de sémen bateu contra o fundo da garganta de Ricardo. Era quente, espesso e salgado, e veio com tanta força que Ricardo engoliu por instinto. O segundo jacto veio logo depois, menos forte mas mais abundante — um volume grosso que encheu a boca e fez as bochechas de Ricardo dilatarem. O terceiro foi um gotejar constante enquanto o corpo de André tremia na cama, os músculos do abdómen a contraírem-se em ondas e a perna imobilizada a sacudir-se contra as amarras da tracção.
Ricardo engoliu tudo. Continuou com a boca em volta do pau enquanto os espasmos diminuíam, chupando com suavidade, como quem espreme os últimos goles de um pacote de sumo. A língua limpou a glande, recolhendo os últimos fios de sémen que escorriam da frenda. O sabor era intenso — salgado, levemente amargo, com uma textura espessa que revestiu a garganta de Ricardo como uma camada de mel quente.
Quando finalmente levantou a cabeça, o pau de André ainda estava semi-duro, a piscar com as últimas contracções involuntárias. Uma gota de sémen escorreu pela frenda e Ricardo apanhou-a com a ponta da língua antes de se endireitar na cama.
André estava deitado de olhos fechados, com o peito a subir e descer em respirações profundas e lentas. O suor tinha molhado a camisola hospitalar por completo, e o cabelo escuro estava colado à testa. A mão esquerda continuava agarrada ao lençol rasgado, e os nós dos dedos estavam brancos.
— Foda-se — disse André, finalmente, numa voz que parecia vir de muito longe. — Oito dias. Oito dias de tensão e tu resolves em dois minutos.
Ricardo limpou a boca com as costas da mão e puxou o boxer de André para cima, cobrindo-o de novo. Depois puxou o lençol sobre as pernas dele e ajustou-o com cuidado em volta da perna em tracção.
— Mais vinte minutos e a enfermeira vem cá — disse Ricardo, levantando-se da cama e voltando para a cadeira de plástico azul. — Queres o sumo de laranja agora ou depois?
André abriu os olhos e virou a cabeça para olhar para Ricardo. Os olhos castanhos dele estavam húmidos — não de lágrimas, mas de uma espécie de alívio tão profundo que quase se confundia com outra coisa qualquer.
— Depois — disse André. — Agora fica aí. Só fica aí.
Ricardo ficou.
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