GayAIDad – Barbershop


A campainha da porta parou de tocar há dez minutos, e a loja ficou silenciosa como um cômodo fica silencioso depois que um rádio para de funcionar — não vazia, apenas em suspenso. Lucas estava sentado na segunda cadeira com a capa já presa ao pescoço, a borda rígida de algodão cortando a pele macia sob o queixo. Ele havia parado de contar os azulejos na parede do fundo. Havia parado de fingir que lia o folheto colado no espelho, algo sobre óleo para barba, algo sobre um desconto às terças-feiras. A luz do teto zumbia. Em algum lugar atrás dele, a água pingava na pequena pia de aço com um som semelhante ao de um metrônomo. Ele havia entrado às seis, quando a loja deveria fechar. Ele sempre entrava às seis agora. Na primeira vez, três meses atrás, ele entrou sem marcar hora, com o cabelo nos olhos, e Rafael ergueu os olhos do caixa e disse, com aquela voz grave que parecia vir de algum lugar debaixo das costelas: “Sente-se, tenho tempo para mais um.” Lucas estava sentado, e o silêncio o envolvera como um cobertor, e ele dormira pela primeira vez em semanas, ali mesmo na cadeira, enquanto um estranho encostava uma lâmina em sua garganta. Ele não contara a ninguém sobre essa parte. Nem sobre o sono. Nem sobre a volta. Nem sobre o fato de ter começado a cronometrar seus cortes de cabelo para as exatas duas semanas em que seu cabelo não precisava. Atrás dele, os passos de Rafael cruzavam o piso — lentos, sem pressa, o peso de um homem que conhecia cada tábua do seu próprio chão. Lucas o observava no espelho sem virar a cabeça. O avental branco, as mangas arregaçadas até o cotovelo, os antebraços que pareciam ter sido esculpidos na mesma madeira escura da cadeira. Rafael pegou a tira de couro do gancho e passou a navalha sobre ela, para frente e para trás, para frente e para trás, o couro sussurrando. As mãos de Lucas suavam dentro da capa. Ele pressionou as palmas contra as coxas e se obrigou a respirar. “Igual a sempre?”, perguntou Rafael. “Sim.” A voz de Lucas saiu fraca. Ele pigarreou. “Só… o de sempre.” A boca de Rafael se moveu, num gesto que não chegou a ser um sorriso. “O de sempre é muito cabelo por duas semanas, garoto.” Lucas sentiu o calor subir pelo pescoço e atribuiu isso à capa. “Cresce rápido.” “Hum.” Rafael se aproximou, perto o suficiente para que Lucas pudesse sentir seu cheiro — rum, talco, o leve suor limpo de um homem que passou o dia todo em pé. Ele colocou a navalha na bandeja com um clique, e os olhos de Lucas a seguiram, como sempre a seguiam, como seguiam qualquer coisa que as mãos de Rafael tocassem. Então, aquelas mãos estavam sobre ele. Uma palma envolveu a nuca de Lucas, inclinando sua cabeça para trás contra o encosto; a outra subiu até o queixo, dois dedos e o polegar, e virou seu rosto para a luz. Lucas fechou os olhos. “Abra”, disse Rafael, e Lucas abriu os olhos. Lá estava Rafael no espelho atrás de seu ombro, os olhos escuros firmes, a barba grisalha aparada rente, os cantos da boca formando algo que não chegava a ser um sorriso. “Você está tenso hoje.” “Não estou.” “Você é um péssimo mentiroso.” O polegar de Rafael deslizou pela mandíbula de Lucas, testando a textura da barba por fazer. “Relaxe a mandíbula. Você vai me fazer cortar sua barba.” Lucas tentou. Chegou quase à metade do caminho antes que o polegar de Rafael deslizasse para baixo, logo abaixo da orelha, e pressionasse. Era um toque leve — o toque de um barbeiro, o tipo de toque que acalma a cabeça de um homem antes de um golpe. Mas não se moveu. Permaneceu ali, quente, seco e deliberado, e Lucas sentiu o pulso acelerar sob ele, e soube, como se sabe quando alguém está te observando dormir, que Rafael também sentia.

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